Os portugueses têm uma estranha relação com os seus carros. Uma delas é o facto de ignorarem equipamentos de segurança em detrimento de acessórios de estética - a menos que os equipamentos de segurança... sejam visíveis do exterior.
Um exemplo prático: quantas pessoas optam por dar mais 500 euros (o número é apenas exemplificativo) para equiparem o seu carro com ESP e airbagas adicionais em vez de darem o mesmo dinheiro por... 4 vistosas jantes de liga leve? Muito poucas, estou certo.
E é assim relativamente a quase tudo o que tenha a ver com segurança. Não sou psicólogo, mas não me parece que seja preciso ter formação específica para entender a lógica por detrás disto. Por um lado, ABS (felizmente, agora obrigatório), ESP e aírbags não se vêm (logo, o seu valor de
show off é limitado ou nulo); por outro lado, o típico português parte sempre do princípio de que não precisa de equipamentos de segurança porque os seus dotes de condução são excepcionais. Como se sabe, em Portugal só uma estranha categoria de pessoas tem acidentes: chama-se "os outros"...
O curioso é que esta regra dos equipamentos de segurança serem ignorados é completamente subvertida quando esses mesmos equipamentos são visíveis de exterior. Lembram-se quando a terceira luz de stop, colocada em posição elevada, se tornou obrigatória? Ele era um corropio às lojas de acessórios para adquirir estas luzes, que muitas vezes acabavam (mal) colocadas em posições ridículas e perfeitamente desadequadas.
Se recuarmos há décadas atrás podemos identificar outros momentos semelhantes, por exemplo quando se tornaram obrigatórios os encostos de cabeça para os lugares da frente - uma sub-indústria de encostos de cabeça para bancos que não os possuiam de origem surgiu de imediato, para saciar o interesse do pessoal.
A lógica por detrás disto, penso eu, é dupla: é um acessório de segurança é visível do exterior; e o facto de se ter um acessório, num carro já velho, que é agora obrigatório para os carros novos, dá ao seu proprietário a sensação subconsciente de que o seu carro é também "novo". Certo... Querem outro exemplo? Já se esqueceram das "matrículas europeias"?
Vem tudo isto a propósito da recente moda (outros diriam "praga") de equipar os carros (velhos e/ou de gamas baixas) com faróis de xenon ou, não o sendo, faróis de cor azulada - quantas vezes com características técnicas fora dos parâmetros correctos e que encandeiam quem circula em sentido contrário.
Quando este tipo de faróis surgiu pela primeira vez, sabiamos sempre que, quando os vissemos à noite, nos iríamos cruzar com um automóvel topo-de-gama.
Provavelmente, essa foi a razão de tão grande - e previsível - popularidade deste tipo de faróis. "Posso não ter um carro topo-de-gama", raciocina o proprietário do chasso, "mas pelo menos tenho faróis que sugerem o contrário".
Perante estes ensinamentos sociológicos, os fabricantes só têm de arranjar uma forma de tornarem visível para o exterior as melhorias realmente relevantes em termos de segurança, como airbags de cortina e sistemas de controlo de estabilidade. A partir do momento em que issso aconteça, os portugueses irão finalmente considerar que o investimento vale a pena.